http://fineartamerica.com/images-medium/call-of-the-wild-ana-bikic.jpg
Era tempo de guerra.
Estava de saco cheio de canções sobre festas ou abandonos, o povo parecia não perceber a real cor de tudo. Cada um seguia vivendo ordenadamente na maravilhosa colmeia urbana. Passos, gestos e uniformes milimetricamente calculados e adequados ao espírito de cada um - correção, daqueles que ainda possuíam alguma coisa dentro do saco de carne. Sentia-se cansado e fraco, tomava uma surra diária, o estômago doía, a cabeça girava e girava, não conseguia dormir direito, acordava mais cansado do que quando deitara e não se lembrava mais do último gozo real que tivera, embora a necessidade de foder o consumisse. Fizera seu abrigo em uma região afastada do caos, ainda havia algumas árvores por ali e um lago imundo. Seus pertences eram poucos, mas vitais - caderno, lápis, roupas velhas, bota, livros e fotos. Caçava algumas aves que via por ali e plantava batatas e cenoura, embora alguma coisa o dissesse que logo logo nada mais sairia daquela terra, na verdade, tudo seria consumido por ela, como o efeito de um grande buraco negro. Era o único humano num raio de quilômetros, mas sabia que alguma coisa estava errada. Não se sentia tranquilo, era observado o tempo todo. Vozes gritavam seu nome por todas as direções, durante a noite sentia seu corpo sendo estirado para todos os lados, parecia ser esmagado de dentro pra fora. Tinha um papel a cumprir com aquele local, com aqueles mortos animais, com aquele lago fodido, com aquela cidade devastada e aqueles babacas fantasiados, querendo ou não, tinha sempre um papel a cumprir, e TODOS esperavam alguma coisa dele. Todos queriam vê-lo sorrindo ou sofrendo quando esperado. Parecia ser peça vital para aquela engrenagem medonha continuar trabalhando, não sabia se estava louco, sentindo-se perseguido como uma vítima filha da puta, sendo na verdade um fraco covarde. Mas naqueles dias estava exausto e tudo ficava contra ele. Não tinha mais forças para sustentar aquele filme assustador do qual era o personagem principal, a merda de um anti-herói, queria pular fora, sentir-se livre das amarras e correntes. Precisava fugir, ir a outro lugar, deixar tudo desabar e assim fez.
Em sua primeira noite fora, buscou o abrigo de alguns rochedos e quando adentrava em sua primeira noite de real descanso dos últimos meses, ouviu alguns guinchos e rosnados. Exausto, abriu os olhos com dificuldade e viu-se rodeado por chacais, animais gigantescos e com dentes imundos, salivando, nutrindo olhos sedentos por suas tripas. Estava cercado. A proteção das rochas virou sua prisão, não tinha pra onde ir. Era aceitar e morrer. Pronto, simples de uma forma como nada havia sido antes. E lembrava-se dessa cena, não sabia ao certo de onde, se de um filme, se da vida ou de um livro que lera.
Era sua hora. Era tempo de guerra, sua guerra.
Levantou-se de uma vez e sentiu seus olhos ferverem, não se entregaria, puta que pariu que não. Gritou como nunca havia feito, um berro do mais fundo diafragma, que fez queimar a garganta e levantou as mãos aos céus como um animal. Pegou uma pedra e jogou na cara do primeiro monstro que viu à sua frente enquanto, com a outra, pegava uma lenha em chamas e corria na direção dos predadores. As criaturas ficaram atordoadas, não entenderam o que aconteceu. O rato acuado, fraco e covarde ergueu-se como monstro raivoso e extravasando a raiva, o medo e a ansiedade reprimidas por tanto tempo. Foi mordido várias vezes nas pernas e braços, sua roupa rasgou e tomou uma forte unhada no rosto que cortou o canto de seu lábio inferior - sentiu o gosto do sangue quente em sua boca, e era muito gostoso. O derrubaram no chão e subiram sobre ele, mordendo e arranhando, o que só serviu de estopim para explodir aquela bomba em seu estômago. Socou a cabeça dos animais com a pedra, e a madeira em chamas perfurou o esterno de um dos chacais, um que parecia mais velho. Com uma brecha levantou-se, um caco, arrebentado e mancando, correu alguns metros e caiu no chão. Olhou rapidamente para trás e viu que os animais continuavam do mesmo jeito. Eles compreenderam tudo que acontecera, ele sabia. Entenderam que fora sua hora de libertação, a explosão de seu real ser que vivera preso em uma armadura que antes, há anos atrás, aceitou vestir sob todas as honras de um puto cavalheiro.
Era sua libertação. Agora, era sua vida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário