segunda-feira, 24 de março de 2014
Os campos - Passagem, 20
Vi seus olhos cinzentos, etéreos e intensos, parecendo me perseguir aonde quer que fosse. Me sentia vulnerável, não sou velho, mas a idade chega, principalmente a idade do coração. A conversa foi rápida, tudo que faço tem sido rápido ultimamente, trocamos algumas palavras enquanto jogava as poucas coisas que tinha na mochila nova. Vestia uma calça jeans, camisa de abotoar, uma bota, óculos de sol, carregava um livro e um cachimbo e a vontade de partir. Tentei desviar o olhar, procurar um ponto cego em meu peito, mas não havia, não ainda, estava turvo, mas ainda enxergava e como farol sobre a noite de mar revoltoso, aqueles olhos sempre me encontravam. No instante em que começaram a chover, parei um segundo e pensei - meu corpo estremeceu, suei frio e quase desisti. Quando os veria outra vez? Ou melhor, quando seria consumido outra vez por aquela luz acinzentada, que parecia ter tanto para me contar? Era eu contra o mundo. E não entendia o porque disso tudo, o porque de representar o que eu representava, pois naqueles tempos, nem sabia ao certo como soava a mim mesmo.
Peguei o caderno, deixei sobre a mesa um bilhete, uma margarida e parti - queria ver os campos.
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