segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Passagem, 15 - Antônio Carlos e San Adreas
Foi o que ele precisava - todo o tempo que levou o fim do mundo.
Às vezes o tempo dura questão de segundos, os quais podem esticar-se a anos e meses glaciais. Naquele dia estava cansado, o engarrafamento era enorme.
- Outra vez a Antônio Carlos parada... é brincadeira viu. No carro, aquele folk batido de canadenses vestidos de lenhadores tocava e tocava e tocava, contrastando de forma quase cômica aos gritos das buzinas, motores e motoristas mais exaltados que acreditavam piamente em sua capacidade de mover o trânsito com suas belas palavras.
A chuva caía por todos os lados, parecia inclusive vir de baixo, pois a enxurrada era tremenda, vinham plásticos, jornais, caixas, pessoas e corações, tudo arrastado pelas águas imundas. Os pingos batiam na lataria do carro de forma pesada e já o deixavam ansioso quanto a uma possível chuva de granizo, já lendária em sua região. Achava incrível como, de repente, o céu se passava do cinza ao preto, o fim do dia, aquele momento de divisa entre a tarde e a noite era completamente antecipado e a escuridão reinava, dando lugar aos faróis, tochas e morcegos. Seu isqueiro já falhava um pouco, mas deu sua última chama para acender o lucky strike que sobrava do maço. Como o carro estava fechado, sentiu-se completamente estúpido por acender o cigarro, assim, arriscou-se a abrir um pouco a janela. O carro já estava desligado, pois o engarrafamento não se movia há cerca de 10 minutos. Começou a pensar em sua vida, pois esses momentos no trânsito, além de excelentes para passar raiva, são ótimos para filosofar. Estava de saco cheio do serviço, fazia em partes o que gostava, porém o ambiente de trabalho estava sufocante, mesquinharia e injustiças por todos os lados; não estava muito feliz consigo mesmo, sentia que faltava muito de um eu que conhecera há tempos e já não sabia ao certo onde estava; a cidade, aquela bela belo horizonte o sufocava, pois era o palco de sua rotina exaustiva e enclausuradora. Não estava sofrendo, a vida era boa, porém, não era a forma como ele a via naqueles últimos dias. Sentia faltas e excessos de pessoas, sentimentos e atitudes e isso era uma grande merda.
- Poxa, é bem assim, até o cigarro acaba; mal terminara de dizer e os olhos se ofuscaram pelos fortes clarões que saltavam do céu. Explosões azuladas emanavam em meio à escuridão daquele céu belorizontino; relâmpagos fortes como nunca antes vira caiam ao longe, mas se aproximavam em uma velocidade tremenda.
- Mas que merda... - os motoristas e passageiros dos carros corriam desesperadamente, os motoqueiros aceleravam tentando passar entre os carros e sobre as pessoas. Em questão de segundos, muitos foram atropelados, braços arrancados e corpos dilacerados por todas as partes. Era o ser humano em seu estado cru, como uma manada de guinús fugindo desesperadamente de leões sedentos por sua caça. Os vidros dos carros explodiam e os cacos voavam por todos os lados, principalmente sobre os corpos, pareciam guiados. O chão tremia e o asfalto afundava em alguns pontos da avenida, levando junto os carros, pessoas, árvores e sonhos rumo a um inferno solitário.
Ele ficou ali parado. Era isso, era o fim de tudo o que conhecera, era o fim do mundo. Bem, pode ser que não era o fim do mundo por um todo, mas pelo menos ali, naquela avenida em belo horizonte, a ordem fora posta ao chão, o chão fora posto ao insólito e as pessoas eram postas aos pedaços de carne esmagada e cortada em fatias de almas finas e instáveis. E naquele pequeno pedaço de mundo, os morcegos sedentos já perambulavam não só entre os escombros, mas próximo aos vivos. E tudo começara como um dia ordinário de trabalho, de uma vida que vinha sendo ordinária, não pelo mundo, mas por ele. E achava sim que um dia iria explodir por um daqueles engarrafamentos, mas não dessa forma. Abriu a porta do carro e saiu. No local onde estava o piso começava a se rachar, alguns relâmpagos explodiam em questão de metros, pedras de gelo começaram a cair dos céus, tudo estava caindo. Sentiu um forte aperto em seu braço, era uma mulher, com roupa social, estava descalça, o rosto sangrava fazendo o cabelo se pregar em sua face.
- Me ajude, me tire daqui, por favor, meus filhos.
- O que eu... - Mal terminou de dizer isso a mulher correu e se jogou em um dos grandes buracos negros. Era o caos instalado, mas esse era literal, não aquele caos disfarçado do dia à dia do qual ele já estava cansado e puto da vida. Os gritos, o cheiro da fumaça, o fogo, as pedras de gelo batendo em suas costas, peito, braços, pernas e traqueia, os gritos eram terríveis, mas ele ficava imóvel. Não pensava em sua família, não pensava no lanche, esquecera do serviço, quem era sua namorada, não havia livros, músicas ou filmes, mas pensava muito em seu cão, onde ele estaria, já teria sido sugado a outra dimensão, ou os cães seriam poupados desse apocalipse inesperado, não sabia, pensava também nas viagens que queria fazer, se na califórnia, naquele momento, a falha de san andreas também sugava tudo e todos. Nunca saberia.
Era isso, era o fim de tudo, daquele tudo que desconhecia, a fumaça subiu forte, ar espesso, narinas e garganta ardendo, mesmo assim respirou fundo, daquelas respiradas de "como se fosse a última vez", mas dessa vez seria, ele sabia e não estava nervoso. Quis gritar e gritou alto, berrou o mais forte que podia, sentindo seus vasos latejando e imaginou seu rosto vermelho, prestes a explodir e, ao longe, teve certeza de que todos, antes de caírem para escuridão, ouviram seu berro de libertação e de adeus - ou mesmo os que não ouviram, foram levados por essa trilha sonora furiosa e feliz. Quase não conseguia enxergar, tentou se manter firme, mas perdeu a noção de espaço, profundidade e direção, não sabia se quer se estava de pé ou deitado, já que os blocos do asfalto estavam de pé e deitados, inclusive sobre ele, sob ele. Mas dessa vez ele se sentia sobre tudo, e seu corpo tremia, já devia estar se partindo e começou a sorrir, dando gargalhadas enlouquecidas e em meio a lucidez, percebeu os raios caindo, caindo e caindo e foi a visão mais fantástica que tivera em toda sua vida.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário