Burn Season
Era uma tênue linha a separar o céu do inferno. Ele estava prestes a se romper, era fracionado em vários eus e não sabia em qual sentido olhar. Seu espírito era empurrado em várias direções e sentia os fragmentos voando para cima, baixo, dentro e fora. Era um limbo, um vazio, resquício do que fora, mas era o que ainda restava. Esses pensamentos o faziam lembrar da bela e serena Henriqueta Lisboa e seu sutil "Flor da Morte". Corpo automatizado e vida em múltiplas funções, batimentos e fumaça, dinheiro e supermercado. O relógio corria e a penumbra aumentava, sendo perturbada apenas por seus vários fragmentos de carne, suor, espírito e pensamentos que a atingiam como penugens, descrevendo um leve traçado pelo ar, mas quando chegavam à superfície, cravavam-na como bloco de concreto enraizado. A fragilidade era enorme, mas a carcaça que o revestia era bruta e crespa, cicatrizada por adaptações aos ataques daquela zona de guerra, a linha de frente, entre céu e inferno, entre querer e poder, entre ser e estar, entre ele e ele.

Nenhum comentário:
Postar um comentário