terça-feira, 27 de maio de 2014

Passagem, 24



Uma gota do tempo caiu sobre sua pele clara, os dedos magros arderam ao secá-la.

Foi até onde devia, era seu máximo, não havia próximas curvas ou ladeiras. Ah, como se lembrava das ladeiras de São Francisco, do bonde e também de Tiradentes e seu calçamento irregular. Nesses dias pensava em se mudar para praia e largar sua profissão surrada.

Ela ensinara-lhe muito sobre a vida e a necessidade de ser forte. Sobre lutar até o último instante, com a última gota de força. Sobre não se entregar e manter uma energia extremamente positiva e inabalável até o fim. E, mais do que isso, ensinara-lhe sobre o quanto ele era pequeno, sobre quanto seus pequenos problemas, pequenas gotas ácidas eram mínimos e insignificantes, não mereciam ter a capacidade de nublar um de seus dias ou amargar seu café. Ela falava com ele, dia após dia, em outra língua e, mesmo com essa barreira, que nunca os afastou, se entendiam. Ele entendia seu pedido de socorro, seu olhar que dizia já estar cansada e fraca, apesar de manter uma expressão carinhosa e amável. Sempre. Ela entendia o quanto ele se preocupava e pensava nela durante a noite e o dia, o quanto queria ajudá-la, mas não estava mais a seu alcance e isso o frustrava e entristecia. E era a hora dela. O momento de sua libertação e descanso e essa aceitação era um gesto de amor, por mais difícil que fosse. E, apesar de corroê-lo por dentro, após tomar a decisão, o olhar de agradecimento que ela lhe retornou era o suficiente para superar qualquer dor ou angústia, era a paz e o agradecimento pelo socorro, por ajudar a soltar as amarras que a mantinham aqui.

Sua missão foi cumprida. A dos dois.

Um comentário:

  1. Um encanto. Adoro textos que me transportam para os lugares descritos. Muito bom, Luiz <3

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